Diretora de Matrix diz que quem assiste Harry Potter está financiando “genocídio trans”
Lilly Wachowski chama J.K. Rowling e Elon Musk de “nazistas de verdade”, acusa a indústria de abandonar histórias trans e anuncia novo estúdio para financiar projetos de comunidades marginalizadas.
Lilly Wachowski, uma das diretoras de Matrix, resolveu falar — e definitivamente não economizou nas palavras.
Em entrevista publicada pela Variety nesta sexta-feira (11), a cineasta falou sobre seu novo estúdio independente, a Anarchists United, sobre a dificuldade de encontrar financiamento para projetos com protagonistas trans e queer, relembrou as origens políticas de Matrix e também voltou a atacar duas de suas figuras públicas favoritas para odiar: Elon Musk e J.K. Rowling.
E, quando o assunto chegou a Harry Potter, a declaração foi particularmente extrema.
Segundo Wachowski, Rowling estaria financiando aquilo que ela chama de “genocídio trans”.
“J.K. Rowling financia o genocídio trans, ponto final. Então, se você apoia ‘Harry Potter’, você está apoiando o genocídio trans.”
Para Wachowski, a lógica seria bastante simples: parte do dinheiro gasto pelos fãs com produtos de Harry Potter chega até J.K. Rowling, que utiliza seu dinheiro para financiar causas e iniciativas que a diretora considera prejudiciais à população trans. Portanto, consumir a franquia significaria financiar essas ações.
Ela mesma compara a situação ao boicote à Tesla para quem é contrário a Elon Musk ou à redução do consumo de gasolina por alguém preocupado com mudanças climáticas.
Ou seja: não basta discordar de Rowling. Para Wachowski, é preciso deixar de consumir a obra.
E é aqui que a coisa fica realmente interessante.
“Essas pessoas são nazistas”
Antes de chegar a Harry Potter, Wachowski foi questionada sobre Elon Musk e J.K. Rowling e não demonstrou qualquer interesse em escolher palavras mais moderadas.
“Essas pessoas são nazistas. São nazistas de verdade”, afirmou.
No caso de Musk, ela citou a polêmica envolvendo um gesto feito pelo bilionário em um evento público e afirmou que existe uma ligação direta entre ele e a comunidade nazista.
A diretora também defendeu que outros países deveriam “isolar” os Estados Unidos e combater o discurso que considera de ódio, chegando a defender o fechamento de plataformas.
É uma linguagem que já não trata simplesmente de discordância política.
Wachowski não está dizendo que Rowling tem uma opinião errada sobre determinado assunto ou que Musk defende ideias que ela considera perigosas. Ela está colocando os dois dentro da categoria de “nazistas de verdade”.
E, quando essa mesma entrevista chega ao consumidor de Harry Potter, a lógica dá mais um passo.
O fã deixa de ser apenas alguém que gosta de uma obra produzida por uma pessoa com quem não concorda. Ele passa a ser apresentado como alguém que está, financeiramente, contribuindo para aquilo que Wachowski considera uma campanha de extermínio.
É uma acusação gigantesca baseada em uma relação muito mais simples: você comprou um produto, parte do dinheiro chegou à autora e a autora financia determinadas causas que você considera moralmente condenáveis. Logo, você é cúmplice.
É uma maneira bastante peculiar de enxergar o consumo cultural.

A guerra cultural chegou até a prateleira
A entrevista deixa claro que Wachowski enxerga a atual disputa em torno de pessoas trans como uma guerra cultural de grandes proporções.
Ela afirma que, durante o período em que Laverne Cox estampou a capa da Time e parecia existir um avanço significativo na aceitação pública das pessoas trans, Hollywood também estava caminhando nessa direção.
Depois, segundo ela, tudo mudou.
Wachowski atribui essa mudança principalmente à atuação de bilionários e àquilo que chama de propaganda negativa contra pessoas trans.
Ela cita, por exemplo, histórias envolvendo crianças e “caixas de areia para gatos”, discussões sobre cirurgias de transição em menores e o chamado Relatório Cass como exemplos de narrativas que, em sua avaliação, foram utilizadas para criar uma imagem falsa ou distorcida da realidade.
Também afirma que as discussões sobre intervenções médicas em menores seriam essencialmente propaganda da direita.
Aqui existe um detalhe importante: a entrevista apresenta essas questões quase exclusivamente pela interpretação da própria Wachowski. Não há uma discussão mais ampla sobre os argumentos existentes nos dois lados do debate. O objetivo da conversa é entender a visão da cineasta e seu novo projeto — e ela deixa bastante claro de que lado está.
Para ela, a indústria cultural também teria recuado.
E é aí que entra sua própria carreira.
Hollywood parou de querer as histórias de Lilly Wachowski
Depois do cancelamento de Work in Progress, série da Showtime que teve duas temporadas, Wachowski diz ter passado anos tentando vender projetos com histórias queer e trans.
Sem sucesso.
Ela cita Cosmoknights, uma adaptação da história em quadrinhos que descreve como uma espécie de “Star Wars com lésbicas no espaço”, produzida por Amy Poehler. Segundo Wachowski, o projeto foi apresentado aos grandes estúdios, mas ninguém quis comprá-lo.
Outro exemplo foi Manhunt, adaptação do livro de Gretchen Felker-Martin. De acordo com a diretora, também não conseguiram fazer o projeto sair do papel.
Ela afirma que essas tentativas aconteceram por volta de 2022 e que, quatro anos depois, continua sem encontrar um estúdio interessado em produzir esse tipo de projeto.
Também existe The Hunted, um filme de ação com elenco totalmente transgênero para o qual, segundo ela, foi extremamente difícil conseguir um orçamento de US$ 10 milhões.
Diante disso, Wachowski decidiu parar de depender dos grandes estúdios.
E criou a Anarchists United.
O novo estúdio de Lilly Wachowski
A Anarchists United reúne uma fundação e um estúdio com a proposta de apoiar cineastas e criadores de comunidades marginalizadas.
A fundação pretende oferecer bolsas, mentorias e programas de preparação para novos diretores. O projeto também inclui espaços de trabalho para cineastas iniciantes.
A ideia, segundo Wachowski, é criar uma rede capaz de oferecer às pessoas as ferramentas necessárias para entrar na indústria e, ao mesmo tempo, construir uma estrutura independente dos grandes conglomerados de Hollywood.
O primeiro projeto é Cassie Workman Is Witchy AF, uma docussérie protagonizada pela comediante australiana trans Cassie Workman, que explora ocultismo e magia com uma abordagem humorística.
A estreia está marcada para 16 de setembro no YouTube.
Wachowski também revelou outros projetos em desenvolvimento, incluindo uma produção com Abigail Thorn, do PhilosophyTube, chamada Billionaire Killers. A história se passa em um cenário pós-apocalíptico no qual pessoas precisam desenterrar bilionários escondidos em bunkers.
O nome do estúdio, portanto, não deixa muita dúvida sobre a proposta.
Anarchists United.
A ideia é assumir a própria produção e criar uma alternativa à indústria que, na visão de Wachowski, deixou de abrir espaço para essas histórias.

E afinal, o que isso tem a ver com Matrix?
Talvez a parte mais curiosa da entrevista seja a maneira como Lilly Wachowski revisita Matrix décadas depois.
Ela explica que, na época do primeiro filme, ela e Lana ainda não tinham a compreensão que possuem hoje sobre questões trans. Elas não conheciam sequer o conceito de identidade trans da maneira como passaram a conhecer posteriormente.
Por isso, Wachowski diz que Matrix não foi concebido originalmente como uma alegoria trans consciente.
A interpretação veio depois.
Ela afirma que, olhando para trás, consegue enxergar na história elementos relacionados à própria sensação de estar no armário e ao desejo de libertação.
Mas existe outra influência que ela considera fundamental: a luta negra por liberdade.
Segundo Wachowski, ela e Lana viviam em Chicago e estavam cercadas pela história da segregação racial da cidade. A experiência de atravessar bairros separados por linhas raciais, a história do redlining e o movimento Black Power teriam influenciado a maneira como as duas enxergavam a ideia de um sistema opressor.
É nesse contexto que ela associa Morpheus a Fred Hampton e aos Panteras Negras.
Zion também teria sido construída majoritariamente com pessoas negras e pardas de maneira deliberada.
Assim, quando Neo começa a questionar a realidade e se rebelar contra o sistema, Wachowski hoje enxerga uma mistura de todas essas experiências: libertação racial, opressão social e, retrospectivamente, sua própria experiência como pessoa trans.
É uma interpretação interessante.
Mas também é importante fazer uma distinção: uma leitura posterior de uma obra não transforma automaticamente essa leitura na única interpretação possível da obra.
Matrix pode ter uma leitura trans. Pode ter uma leitura política. Pode ser interpretado como uma história sobre controle, alienação, tecnologia, religião, filosofia ou simplesmente como a história de um sujeito que descobre que sua realidade é uma mentira.
Uma coisa não precisa obrigatoriamente eliminar a outra.
E esse ponto fica especialmente curioso porque a própria Wachowski admite que, quando escreveu o filme, ainda não possuía a linguagem ou a consciência que hoje utiliza para descrevê-lo.

O problema começa quando a interpretação vira obrigação
E aqui chegamos ao ponto que, para mim, é o mais absurdo de toda essa entrevista.
Lilly Wachowski tem todo o direito de odiar J.K. Rowling.
Tem todo o direito de considerar as opiniões de Rowling perigosas.
Tem todo o direito de não assistir à série de Harry Potter da HBO.
Tem todo o direito de criar um estúdio independente, financiar histórias trans, fazer filmes políticos e passar o resto da vida criticando Elon Musk, Rowling ou quem quer que seja.
O problema é transformar isso em uma espécie de teste moral para o público.
Porque, de acordo com a própria lógica apresentada na entrevista, não existe mais espaço para a velha frase “eu gosto da obra, mas não concordo com o autor”.
Você não pode simplesmente ter lido Harry Potter quando criança.
Não pode gostar dos filmes.
Não pode querer assistir à nova série porque sente nostalgia.
Não pode comprar um livro sem antes fazer uma auditoria ideológica da autora.
Se fizer isso, segundo Wachowski, você está ajudando a financiar o “genocídio trans”.
É uma acusação tão extrema que acaba esvaziando a própria palavra utilizada.
Quando “genocídio” passa a ser empregado para descrever qualquer financiamento de causas políticas que uma pessoa considera profundamente nocivas, o termo deixa de funcionar como uma descrição objetiva e passa a funcionar como uma arma retórica.
E o mesmo vale para “nazista”.
É perfeitamente possível criticar Musk ou Rowling. É possível considerar determinadas declarações perigosas, preconceituosas ou absurdas. É possível discordar radicalmente das posições políticas de ambos.
Mas transformar qualquer pessoa que esteja do outro lado de uma disputa cultural em “nazista de verdade” não produz exatamente um debate mais inteligente.
Produz uma guerra.
E a própria entrevista mostra que Wachowski está completamente confortável em tratar essa disputa como uma guerra.

O fã de Harry Potter virou parte do problema?
Essa talvez seja a pergunta mais interessante que sobra depois de ler a entrevista.
Porque a discussão não é mais apenas sobre J.K. Rowling.
É sobre até onde deve ir a responsabilidade moral de quem consome uma obra.
Se o princípio é que qualquer dinheiro que chegue ao autor torna o consumidor responsável pelas opiniões e pelas ações políticas desse autor, então a lógica pode ser aplicada praticamente a qualquer franquia.
Você compra um livro? Está financiando o autor.
Assiste a um filme? Está financiando o estúdio.
Compra um jogo? Está financiando a empresa.
Compra uma música? Está financiando o artista.
E se descobrirmos que uma dessas pessoas defende alguma coisa que você considera repugnante?
Você deveria abandonar automaticamente tudo o que ela produziu?
É uma escolha perfeitamente legítima.
O que não é legítimo é fingir que essa escolha é uma verdade universal e que quem decide fazer diferente está automaticamente financiando genocídio ou nazismo.
E é justamente aí que a crítica de Wachowski perde força.
Porque ela poderia defender o boicote a Harry Potter. Poderia explicar por que pessoalmente não consegue mais separar a obra da autora. Poderia pedir aos fãs que reconsiderassem seu consumo.
Mas ela vai muito além.
Ela transforma o consumo da obra em uma espécie de cumplicidade moral.
E, nesse raciocínio, milhões de pessoas que cresceram lendo uma história sobre um garoto órfão descobrindo que era bruxo passam a ser colocadas na mesma discussão que legislação, ativismo político, bilionários, nazismo e “genocídio”.
É muita coisa para colocar dentro de uma varinha mágica.
No fim, Lilly Wachowski parece ter encontrado uma resposta para a dificuldade de vender seus projetos: construir a própria estrutura para produzi-los.
E isso é absolutamente legítimo.
Talvez a Anarchists United consiga produzir filmes e séries que Hollywood não quis financiar. Talvez encontre um público enorme. Talvez não.
Mas existe uma ironia difícil de ignorar.
A cineasta que ajudou a criar uma das franquias mais famosas da cultura pop justamente sobre questionar sistemas de controle agora está dizendo ao público que existe uma forma correta de consumir cultura — e que quem escolhe consumir Harry Potter está, por definição, do lado errado.
Você pode discordar de J.K. Rowling. Pode boicotar Harry Potter. Pode até achar que ela está completamente errada.
Mas dizer que uma pessoa que assiste a uma série de fantasia está financiando sua “erradicação” é outra coisa.
Isso não é uma análise de Harry Potter.
É uma declaração de guerra cultural.
Fonte: Variety


