Netflix demite os dois chefes de conteúdo e mais mil funcionários: o que está acontecendo?
Saídas de Bela Bajaria e Dan Lin, em meio à maior rodada de demissões desde 2022, sinalizam que a empresa está tentando reescrever o próprio catálogo.
A Netflix passou a semana fazendo uma limpeza que não se via desde 2022. No dia 14 de outubro, demitiu cerca de mil funcionários — 6% da força de trabalho global —, com a maior parte dos cortes concentrada nas áreas de produto, tecnologia, jurídico e RH. No dia seguinte, anunciou a saída de Bela Bajaria, chief content officer desde 2023 e funcionária da empresa há quase dez anos. Agora, nesta segunda-feira (19), confirmou também a saída de Dan Lin, que comandava a divisão de filmes desde 2024.
No lugar de Bajaria entra Peter Rice, ex-executivo da Fox e da Disney, onde passou pela Searchlight e pela divisão de televisão. Ele assume o cargo no dia 26 e ficará responsável por encontrar um substituto para Lin. Ted Sarandos, co-CEO da Netflix, deixou o recado claro em um memorando interno: vê a mudança como uma “oportunidade de levar o catálogo a um novo patamar”, especialmente nos Estados Unidos e no Canadá, mercado conhecido internamente como UCAN. A prioridade é produzir grandes sucessos, daqueles que geram conversa e repercussão.

Por que essa limpeza está acontecendo agora?
A Netflix continua lucrativa e já ultrapassou 325 milhões de assinantes, mas o crescimento desacelerou, o engajamento estagnou — principalmente nos Estados Unidos — e as ações caíram mais de 40% no último ano. A empresa também perdeu a disputa pela Warner Bros. para a Paramount/Skydance e enfrenta uma concorrência cada vez mais forte do YouTube e do conteúdo gratuito produzido por criadores.
Sarandos já havia admitido publicamente que a empresa não está crescendo tão rápido quanto ele gostaria. As demissões e as saídas dos dois principais nomes da área de conteúdo são a resposta prática a essa pressão.

O que cada um representava?
Bela Bajaria era a cara da estratégia do “hambúrguer gourmet”: conteúdo que tentava ser premium e comercial ao mesmo tempo. Sob sua liderança, a Netflix expandiu a programação sem roteiro, investiu em eventos ao vivo e esportes, incluindo WWE e NFL, e impulsionou sucessos globais como Round 6 (Squid Game) e Bridgerton. Também manteve um volume elevado de produções locais em diversos países. Mas também tem na mão muitos fracassos e cancelamentos.
Dan Lin chegou em 2024 justamente para frear os excessos da era Scott Stuber. Sua missão era gastar menos, produzir menos filmes e organizar a divisão por gêneros, como ficção científica, comédias românticas e ação. Ele priorizou filmes de orçamento intermediário, adaptações de livros e títulos com apelo comercial fácil de identificar, como Happy Gilmore 2, People We Meet on Vacation e The Rip.
Lin também ficou conhecido por adotar uma postura mais rígida com talentos e resistir a janelas longas de exibição nos cinemas, o que provocou atritos com alguns diretores. Inclusive com Greta Gerwig, responsável pela direção de As Crônicas de Nárnia, o Sobrinho do Mago.

O que pode mudar com Peter Rice?
Rice chega com experiência em produções de grande escala, tendo comandado uma operação que lançava dezenas de séries por ano na Disney, além de uma reputação de manter uma relação melhor com os talentos. A mensagem de Sarandos aponta para uma prioridade clara: criar grandes sucessos americanos capazes de conquistar também o público internacional.
Na prática, isso pode significar:
- Menos projetos médios ou de nicho: a Netflix pode concentrar mais recursos em produções com potencial de repercussão ampla, reduzindo a quantidade de apostas menores.
- Uma relação menos rígida com grandes talentos: diretores e estrelas podem encontrar mais abertura, desde que entreguem projetos com potencial de gerar repercussão.
- Mais foco no mercado americano: a empresa pode reforçar a prioridade dos Estados Unidos e do Canadá, em vez de apostar de maneira tão distribuída entre diferentes mercados.
Isso não significa uma guinada automática para produções voltadas exclusivamente ao prestígio, muito menos o abandono dos dados que orientam as decisões da plataforma. A Netflix ainda gasta cerca de US$ 20 bilhões por ano em conteúdo e depende de uma produção em grande escala para sustentar seu negócio.
O problema estrutural continua o mesmo: um volume enorme de produções e uma estrutura de custos que dificultam a manutenção de uma qualidade consistente. Quem assumir o lugar de Lin herdará essa mesma contradição.
As produções que estão em andamento ainda carregam o legado da gestão anterior. O efeito real da nova liderança só deverá aparecer daqui a um ou dois anos, quando os primeiros projetos desenvolvidos sob a nova estratégia começarem a chegar ao público.
Mas também o timing dessas demissões estão dando o que falar, pois existem relatos de má recepção em exibições internas do filme de altíssimo orçamento de Gerwig, somado ao lançamento do primeiro trailer, e a recepção negativa do público.
Até lá, o sinal é claro: a fase de crescimento a qualquer custo parece ter ficado para trás. Agora, a Netflix precisa provar que consegue transformar seus bilhões em sucessos consistentes, principalmente no mercado que mais pesa na conta.







