Reacher 4ª temporada: vale a pena? Crítica e análise completa
O grandão virou coadjuvante da própria série
A quarta temporada de Reacher chegou ao fim no Prime Video mantendo aquilo que a série sabe fazer melhor: pancadaria, violência e Alan Ritchson ocupando metade da tela. O problema é que, dessa vez, isso não foi suficiente para esconder os problemas de uma temporada que começou muito bem, mas terminou deixando uma pergunta incômoda: o que aconteceu com o nosso grandão?
A quarta temporada tinha uma premissa bastante promissora. Reacher testemunha uma mulher tirar a própria vida dentro do metrô da Filadélfia e acaba envolvido em uma investigação que cresce rapidamente, envolvendo um pendrive desaparecido, informações militares confidenciais, a CIA, um candidato à presidência e personagens que parecem esconder muito mais do que estão contando.
Nos primeiros episódios, a série conseguiu fazer exatamente aquilo que se espera de Reacher: apresentar um mistério interessante, distribuir pistas aos poucos e, entre uma descoberta e outra, colocar Alan Ritchson para resolver problemas com os próprios punhos.
E funcionou.
O mistério do pendrive era suficiente para manter a curiosidade, enquanto a ação continuava sendo parte da história e não apenas um intervalo entre uma exposição e outra. A temporada parecia saber exatamente o que estava fazendo.
Só que essa impressão foi mudando conforme a história avançou.

O problema não foi a falta de ação
Se tem uma coisa que definitivamente não faltou em Reacher foi porrada.
A quarta temporada entregou algumas das sequências de ação mais violentas da série, especialmente no episódio final. O confronto de Reacher com Lila e Amisha é praticamente uma demonstração de resistência física: facadas, quedas, tiros, pancadas e um personagem que continua funcionando quando qualquer pessoa normal já teria virado estatística.
Visualmente, a série continua sabendo vender o personagem.
O problema é que Reacher nunca funcionou apenas porque Alan Ritchson é enorme.
O diferencial do personagem sempre esteve na combinação entre força física, inteligência, observação e uma capacidade quase irritante de perceber coisas que ninguém mais percebeu.
E é justamente aí que a quarta temporada começa a tropeçar.
Reacher passou tempo demais sem ser Reacher
Uma das maiores forças da série sempre foi acompanhar um protagonista que não precisa necessariamente ser o mais simpático da sala — ele precisa ser o mais atento.
Reacher observa. Calcula. Faz perguntas. Percebe contradições. Junta informações aparentemente desconectadas e chega a conclusões que deixam os outros personagens tentando entender como diabos ele chegou ali.
Nesta temporada, porém, muitas dessas funções foram distribuídas para os personagens ao redor dele.
Tamara descobre coisas. Jacob descobre outras. Plum ajuda a resolver problemas. Outros personagens avançam a investigação enquanto Reacher aparece cada vez mais como o homem responsável pela parte física da operação.
E isso cria uma situação curiosa: o personagem que deveria ser o cérebro e o músculo da história passa boa parte dela funcionando principalmente como o músculo.
Não é que Reacher tenha ficado burro. O problema é que o roteiro simplesmente não dá a ele tantas oportunidades de demonstrar aquela inteligência que faz parte da identidade do personagem.
E quando você tira isso dele, sobra um sujeito gigantesco que bate muito forte.
Só que isso qualquer filme de ação consegue entregar.

O time secundário tomou conta da temporada
A intenção de ampliar o elenco não é necessariamente ruim.
Pelo contrário. A série sempre funcionou melhor quando Reacher tem personagens interessantes ao redor para criar contraste com aquele jeito seco e pouco sociável dele.
O problema é quando os coadjuvantes deixam de complementar o protagonista e começam a carregar a história nas costas.
A quarta temporada faz isso em vários momentos.
Tamara ganha bastante espaço, Jacob participa diretamente da investigação e Plum acaba sendo utilizado como uma espécie de ferramenta narrativa para fazer determinadas peças da trama se encaixarem.
O resultado é uma temporada em que o grupo parece estar investigando enquanto Reacher está… bem, Reacher está ali.
E isso fica ainda mais evidente porque alguns desses personagens simplesmente não são interessantes o suficiente para sustentar tanto tempo de tela.
Jacob, por exemplo, consegue tomar decisões tão questionáveis que algumas situações parecem existir apenas para que outro personagem precise aparecer depois e consertar a bagunça.
E existe uma diferença entre um personagem cometer erros porque isso faz parte da história e um personagem tomar decisões absurdas porque o roteiro precisa atrasar ou movimentar a trama.
A quarta temporada passa dessa linha algumas vezes.

Os furos começam a aparecer
Outro problema é que a trama começa muito mais inteligente do que termina.
Enquanto o mistério estava sendo construído, cada nova informação parecia acrescentar alguma coisa. Mas, quando chegou a hora de resolver essas situações, algumas soluções ficaram convenientes demais.
E quando uma história de conspiração começa a depender de coincidências para resolver seus próprios problemas, o suspense perde força.

E os vilões?
Aqui a situação também não ajuda muito.
A temporada apresenta uma quantidade considerável de ameaças, mas nem todas recebem desenvolvimento suficiente para realmente parecerem perigosas.
Os capangas aparecem, apanham e desaparecem.
A CIA possui motivações que poderiam render uma conspiração muito mais interessante, mas acabam parecendo pouco convincentes em determinados momentos.
E as próprias Lila e Amisha acabam prejudicadas pelo roteiro.
Não porque duas mulheres sejam capazes de enfrentar homens fisicamente maiores — isso não é o problema.
O problema é a maneira como a série constrói essas lutas.
Na reta final, Reacher passa por uma quantidade absurda de agressões e continua de pé, mas a coreografia transforma parte do confronto em algo próximo de uma caricatura.
Ele é um homem de mais de 100 quilos, treinado para combate, e mesmo assim passa boa parte da luta sendo espetado repetidamente enquanto parece incapaz de simplesmente usar a vantagem física que o personagem possui.
A sequência quer transmitir perigo.
Em alguns momentos, transmite apenas a sensação de que os personagens estão esperando o próximo movimento do roteiro.
A temporada ficou séria demais?
Existe ainda um problema de tom.
Reacher nunca foi uma série particularmente sutil. Ela gosta do absurdo, da violência exagerada e daquele humor seco que surge justamente porque o protagonista parece não ter paciência para as convenções sociais.
Só que a quarta temporada parece querer tratar boa parte da própria trama com uma solenidade maior.
E isso não necessariamente combina com o personagem.
Reacher pode estar envolvido em uma conspiração enorme, mas ele continua sendo aquele sujeito que olha para uma situação absurda e responde com uma frase curta antes de resolver tudo na pancada.
Nesta temporada, faltou um pouco mais desse Reacher.
Alan Ritchson continua sendo perfeitamente adequado ao papel. Na verdade, é difícil imaginar outro ator ocupando aquele espaço físico tão bem.
O problema não está nele.
Está no material que deram para ele interpretar.

E o final?
O último episódio entrega exatamente aquilo que provavelmente fez muita gente continuar assistindo: uma enorme sequência de ação.
A série aumenta a escala, coloca Reacher novamente no centro do caos e encerra a temporada com uma luta longa e extremamente violenta.
Como espetáculo, funciona.
Como conclusão de uma investigação, nem tanto.
Porque vários problemas que apareceram durante a temporada continuam presentes até o final: soluções convenientes, personagens sobrevivendo a situações improváveis e um Reacher que parece muito mais vulnerável e menos eficiente do que deveria.
E existe uma diferença importante entre mostrar que Reacher pode ser ferido e fazer Reacher parecer incompetente.
A primeira opção humaniza o personagem.
A segunda descaracteriza.
Mas a temporada é ruim?
Não.
E esse é justamente o ponto mais complicado dessa crítica.
A quarta temporada de Reacher continua sendo uma série bastante eficiente como entretenimento de ação. Você coloca para assistir e alguma coisa está sempre acontecendo.
A temporada tem ritmo, boas sequências de combate, Alan Ritchson continua funcionando muito bem no papel e o mistério inicial é suficientemente interessante para carregar boa parte da história.
Não por acaso, a recepção crítica continua bastante positiva: 94% no Rotten Tomatoes, contra 67% de aprovação do público atualmente.
Mas esses números também mostram uma diferença interessante entre crítica e público: a temporada foi muito bem recebida no geral, mas a aprovação do público ficou consideravelmente abaixo da crítica.
E isso ajuda a explicar por que é perfeitamente possível terminar a temporada pensando: “Eu me diverti, mas alguma coisa não está funcionando.”

Reacher ainda é Reacher?
Esse é o grande problema da quarta temporada.
Não faltou ação.
Não faltou dinheiro.
Não faltou Alan Ritchson.
Não faltaram personagens, conspiração, CIA, segredos militares, assassinatos e até uma arma biológica.
O que faltou, em vários momentos, foi justamente aquilo que deveria estar no centro de tudo isso: Reacher sendo Reacher.
O personagem não precisa ser invencível. Não precisa ganhar todas as lutas sem levar um arranhão e nem precisa resolver cada mistério sozinho.
Mas ele precisa parecer o homem mais perigoso e mais inteligente daquela sala.
E, nesta temporada, muitas vezes ele parece apenas o cara mais forte.
Essa diferença pode parecer pequena, mas é enorme.
Porque se você transforma Jack Reacher apenas em um gigante que bate em pessoas, você perde justamente o elemento que fez esse personagem funcionar tão bem por quatro temporadas.
A quarta temporada ainda entrega diversão. Ainda tem boas cenas. Ainda tem Alan Ritchson. E ainda é uma das opções mais fáceis para quem quer sentar no sofá e assistir a uma série de ação sem precisar pensar demais.
Só que, ironicamente, talvez esse seja justamente o problema.
Reacher deveria ser o cara que pensa enquanto todo mundo está tentando bater nele.
Dessa vez, parece que deixaram o pensamento para os outros personagens.
E espero que a quinta temporada devolva ao grandão não apenas os músculos, mas também o cérebro.
Porque pancadaria ele já tem de sobra.
Quer conferir uma análise ainda mais completa?
A Dra Geek também analisou o final e a 4ª temporada de Reacher em seu canal no YouTube





