Paramount compra a Warner: entenda o acordo, o que muda e por que a Califórnia entrou no jogo
A Paramount Skydance está cada vez mais perto de comprar a Warner Bros. Discovery. E, na segunda-feira, 21 de setembro, caiu o principal obstáculo que ainda ameaçava impedir a fusão: a ação antitruste movida por 12 estados americanos, liderados pela Califórnia.
Paramount e os estados chegaram a um acordo para encerrar o processo, abrindo caminho para a conclusão da operação. O negócio, avaliado em cerca de US$ 110 bilhões, ainda precisa da aprovação final do tribunal, mas a briga que poderia levar a fusão para um julgamento foi encerrada.
David Ellison, CEO da Paramount, afirmou que espera concluir a compra em aproximadamente duas semanas. David Zaslav, CEO da Warner Bros. Discovery, informou aos funcionários que o fechamento deve acontecer, no máximo, no começo de outubro.
Em português bem claro: a empresa dona da Paramount Pictures, CBS e Paramount+ está prestes a assumir também Warner Bros., HBO, DC, CNN, Max e uma enorme quantidade de canais e propriedades de mídia.
E foi uma novela e tanto até chegar aqui.
Como chegamos até a compra da Warner
No fim de 2025, a Netflix entrou na disputa pela Warner Bros. Discovery e chegou a um acordo para comprar a parte considerada mais valiosa da empresa: o estúdio de cinema e televisão e o negócio de streaming.
A Paramount Skydance não gostou nada dessa história e entrou na briga. A empresa fez uma oferta própria, aumentou o valor e acabou vencendo a disputa quando a Netflix desistiu, em fevereiro de 2026.
O detalhe importante é que a Paramount não ficou apenas com o “filé”. A proposta acabou envolvendo a Warner Bros. Discovery inteira, incluindo seus negócios de televisão a cabo.
A compra passou então por uma série de órgãos reguladores. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos aprovou a operação em junho, e a União Europeia também deu sinal verde em julho, com algumas condições relacionadas à distribuição de conteúdo na Europa. Os acionistas da Warner já haviam aprovado o negócio em abril.
Só que ainda faltava um problema.
E ele veio da Califórnia.

Mas por que a Califórnia poderia impedir uma compra já aprovada?
Aqui é onde a história fica um pouco mais complicada.
Nos Estados Unidos, uma fusão desse tamanho pode ser analisada pelo governo federal e também ser contestada judicialmente por estados quando seus procuradores-gerais entendem que o negócio pode prejudicar a concorrência.
Foi exatamente o que aconteceu.
Em julho, 12 estados americanos, liderados pelo procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, processaram a Paramount para tentar bloquear a aquisição.
A preocupação dos estados era relativamente simples de entender: depois da fusão, uma única empresa passaria a controlar uma quantidade enorme de estúdios, canais de televisão, serviços de streaming e conteúdo. Segundo a acusação, isso poderia reduzir a concorrência, diminuir a quantidade de filmes produzidos e aumentar preços para consumidores.
Traduzindo o juridiquês: o argumento era basicamente “vocês estão juntando empresas demais em uma só mão”.
Por causa desse processo, uma juíza federal determinou que a fusão não poderia ser concluída enquanto a disputa estivesse em andamento.
E isso colocou a Paramount contra o relógio.
A Paramount estava pagando para esperar
O acordo de compra prevê pagamentos adicionais aos acionistas da Warner caso o fechamento demore além de determinadas datas.
É o chamado ticking fee.
Pense nele como um relógio correndo: quanto mais tempo a Paramount leva para concluir a compra, mais dinheiro precisa desembolsar.
Por isso, chegar a um acordo com os estados antes de outubro era importante para a empresa. A disputa poderia se arrastar por meses, e a Paramount já havia indicado que estava preparada para continuar lutando judicialmente se fosse necessário.
Agora, porém, os estados aceitaram encerrar o processo mediante uma série de compromissos.
E é aí que entra a parte mais interessante.
O que a Paramount teve que aceitar?
A Paramount não ganhou simplesmente um “pode comprar a Warner, boa sorte”.
O acordo impõe obrigações que serão fiscalizadas durante cinco anos e podem gerar multas caso não sejam cumpridas.
Mais filmes chegando aos cinemas
A nova empresa terá que lançar:
- pelo menos 30 filmes por ano nos dois primeiros anos;
- 32 filmes por ano nos três anos seguintes;
- pelo menos quatro produções independentes por ano;
- uma parcela mínima de filmes considerados de grande porte.
E existe multa: se a empresa não cumprir a quantidade estabelecida, poderá pagar US$ 30 milhões por filme que faltar.
Além disso, a Paramount terá que investir US$ 300 milhões a mais por ano em produção cinematográfica nos Estados Unidos, totalizando pelo menos US$ 1,5 bilhão durante os cinco anos do acordo.
Ou seja: não basta comprar dois grandes estúdios e depois começar a cortar produção para economizar.
E os estúdios históricos?
Os lotes da Paramount em Melrose Avenue e da Warner em Burbank também entram na história.
Durante cinco anos, eles não poderão simplesmente ser vendidos ou fechados. A ideia é manter esses espaços funcionando para produção cinematográfica e televisiva e também para locações de terceiros.
E isso nos leva diretamente à Califórnia.

A ameaça de abandonar Hollywood
Durante a disputa, a Paramount chegou a considerar tirar sua operação da Califórnia.
O plano envolvia transferir a sede para outro estado, com Tennessee e Texas entre as possibilidades discutidas. A empresa chegou a preparar um plano de contingência para uma mudança caso o acordo com os estados não acontecesse.
O motivo? Dinheiro, impostos, custos de operação e, obviamente, a própria disputa com o procurador-geral da Califórnia.
A possibilidade de perder a Paramount foi um problema enorme para Los Angeles. Afinal, não estamos falando apenas de um escritório: existe um enorme ecossistema de estúdios, trabalhadores, fornecedores e empresas que dependem da produção audiovisual.
No fim, a ameaça não se concretizou.
Poucas horas depois do anúncio do acordo, David Ellison afirmou que a empresa resultante da fusão continuará sediada em Los Angeles.
O acordo não traz uma frase simples do tipo “a sede da Paramount permanecerá em Los Angeles para sempre”. O que ele garante de forma concreta é a preservação dos dois grandes complexos de estúdios durante cinco anos.
Mas Ellison foi direto ao falar sobre o assunto:
a empresa não vai embora de Los Angeles.
E o que acontece com CNN e CBS News?
Essa é uma das partes mais curiosas do acordo.
A nova empresa será dona tanto da CBS News quanto da CNN, duas das maiores operações de jornalismo televisivo dos Estados Unidos.
Para tentar impedir interferência direta da direção da empresa nas redações, o acordo cria um News Editorial Independence Board, formado por cinco jornalistas, atuais ou aposentados, com pelo menos dez anos de experiência profissional.
Há também uma limitação para evitar que todos os integrantes tenham a mesma filiação partidária.
A função desse conselho será supervisionar questões relacionadas à independência editorial e possíveis interferências da administração nas operações jornalísticas.
Isso significa que CNN e CBS estarão completamente livres da influência dos donos?
Não.
O conselho é uma estrutura criada justamente para aumentar essa proteção, mas a eficácia desse tipo de mecanismo vai depender de como ele será utilizado depois que a fusão realmente acontecer.
Ou seja: está no contrato. Agora falta descobrir como funciona na vida real.
E a TV a cabo?
Outro ponto do acordo envolve os pacotes de canais vendidos pelas operadoras de televisão.
Depois da fusão, Paramount e Warner deixarão de ser concorrentes independentes na negociação desses canais. Para evitar que a nova empresa simplesmente use seu tamanho para pressionar as operadoras e aumentar os preços, o acordo determina que determinados pacotes sejam negociados durante cinco anos sob regras específicas.
A preocupação aqui é simples: se você passa a ser dono de uma quantidade gigantesca de canais, fica muito mais difícil para uma operadora dizer “então eu não quero”.
A medida tenta impedir que essa concentração de poder vire automaticamente uma conta maior para o consumidor.
E a Pluto TV?
A Pluto TV, serviço gratuito de streaming financiado por publicidade, também foi protegida pelo acordo.
A Paramount terá que manter o serviço funcionando ou oferecer um sucessor equivalente.
Isso é importante porque a Pluto ocupa um espaço diferente de Paramount+ e Max: o usuário não precisa necessariamente pagar uma assinatura para acessar o conteúdo.
Então o que muda para quem assiste a filmes e séries?
Aqui está a parte que realmente interessa.
Depois da conclusão da operação, uma única empresa terá sob o mesmo teto:
Paramount Pictures, Warner Bros., DC Studios, HBO, HBO Max, Paramount+, CBS, CNN, TNT, TBS, Discovery, Cartoon Network, Nickelodeon, MTV, Comedy Central e Pluto TV, entre muitos outros ativos.
David Ellison já falou sobre a possibilidade de juntar Paramount+ e Max em algum momento. Ao mesmo tempo, ele afirmou que a HBO continuará tendo uma identidade própria.
Mas existe uma diferença importante entre uma declaração de CEO e uma obrigação contratual.
O acordo pode determinar quantos filmes precisam chegar aos cinemas. Não pode determinar qual será o próximo grande sucesso da HBO ou como a DC vai administrar seus personagens.
Isso ainda vai depender das decisões criativas e empresariais da nova companhia.
E os filmes?
Uma das grandes preocupações da fusão era justamente o risco de redução da produção cinematográfica.
A lógica seria simples: se duas empresas passam a ser uma, talvez não faça sentido manter dois estúdios produzindo tantos filmes ao mesmo tempo.
O acordo tenta evitar que isso aconteça imediatamente ao estabelecer a quantidade mínima de lançamentos e obrigar a empresa a aumentar seus investimentos em produção nos Estados Unidos.
Isso é uma garantia importante, mas não resolve tudo.
Produzir 30 ou 32 filmes por ano não significa que todos serão grandes filmes. E também não significa que haverá espaço para todos os projetos que existiriam quando Paramount e Warner eram empresas separadas.
A fusão ainda promete mais de US$ 6 bilhões em cortes de custos, segundo reportagens sobre os planos da empresa. E uma fusão desse tamanho normalmente significa eliminar estruturas duplicadas: departamentos jurídicos, marketing, tecnologia, administração, distribuição e outras áreas.
Ou seja: o acordo protege algumas coisas. Não protege todos os empregos.

Quando a compra vai acontecer?
O acordo com os estados removeu o principal bloqueio judicial, mas a compra ainda não está oficialmente concluída. O acordo precisa passar pela aprovação final do tribunal.
A expectativa de David Ellison é concluir a operação em aproximadamente duas semanas. David Zaslav falou em fechamento até o começo de outubro.
Depois do chamado closing, a Paramount e a Warner passam a fazer parte oficialmente da mesma empresa.
Só que isso não significa que, no dia seguinte, Max e Paramount+ aparecerão magicamente como um aplicativo só, que todos os executivos serão trocados e que metade de Hollywood receberá uma caixa de mudança.
A compra termina primeiro no papel.
A integração de empresas, funcionários, marcas, serviços de streaming e catálogos leva meses — e provavelmente anos.
No fim das contas
A Warner Bros. Discovery está prestes a deixar de existir como empresa independente, e a Paramount ficará gigantesca.
O acordo com os estados impôs algumas travas importantes: mais filmes nos cinemas, mais investimento em produção nos Estados Unidos, preservação dos grandes estúdios da Califórnia, regras para negociação de canais e mecanismos de proteção editorial para CNN e CBS News.
Mas essas condições não eliminam os efeitos de uma fusão desse tamanho.
A empresa combinada ainda terá que encontrar uma forma de administrar um catálogo absurdo de marcas e franquias enquanto procura bilhões em economia.
E é aí que a coisa fica realmente interessante.
Porque colocar HBO, DC, Warner Bros., Paramount, CBS, Nickelodeon, Cartoon Network, CNN, Paramount+ e Max dentro da mesma empresa é relativamente simples.
O difícil vai ser decidir o que fica, o que acaba, o que será vendido, o que será fundido e quem vai pagar a conta dessa brincadeira.








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