Lanternas episódio 6: A série está destruindo seus próprios heróis para construir John Stewart
Lanternas chegou ao sexto episódio e parece cada vez mais determinada a responder uma pergunta que talvez ninguém estivesse fazendo: como transformar personagens consagrados em versões menores de si mesmos?
O problema da série já não está apenas em uma mudança específica dos quadrinhos, em uma piada que não funcionou ou em uma escolha de roteiro particularmente questionável. Existe algo maior acontecendo na maneira como esses personagens estão sendo tratados.
A série parece querer construir uma nova versão de John Stewart, mas, para isso, vem desmontando sistematicamente aqueles que deveriam representar o legado que ele está herdando.
E isso muda completamente a percepção sobre o que estamos assistindo.
Não basta apresentar John. É preciso diminuir os outros?
John Stewart poderia ser apresentado como um excelente Lanterna Verde sem que Hal Jordan precisasse ser transformado em um fracassado.
Poderia ser competente sem que Guy Gardner precisasse parecer um idiota.
Poderia ter uma personalidade forte sem que os outros personagens precisassem ser constantemente utilizados como exemplos daquilo que ele supostamente superou.
Mas Lanternas parece ter escolhido outro caminho.
Hal Jordan passou de um dos personagens mais importantes da mitologia dos Lanternas Verdes para uma figura constantemente associada a egoísmo, fracasso e privilégio. Depois de tudo que aconteceu com ele durante a temporada, o sexto episódio continua insistindo na mesma tecla.
É uma desconstrução que já deixou de parecer apenas uma fase ruim do personagem.
A impressão é que a série quer que o público olhe para o Hal dos quadrinhos e questione por que ele ocupou aquele espaço durante tanto tempo.
E existe uma diferença enorme entre mostrar que um personagem lendário também possui defeitos e simplesmente retirar dele praticamente tudo aquilo que fazia dele um personagem lendário.

Guy Gardner segue o mesmo caminho
O sexto episódio amplia esse problema para Guy Gardner.
Guy sempre foi um personagem difícil. Arrogante, explosivo, inconveniente e frequentemente irritante. Mas justamente essas características fazem parte da identidade dele.
Na série, porém, parece existir pouco interesse em explorar essa personalidade de maneira que preserve sua essência.
O personagem é colocado em situações que o fazem parecer simplesmente burro, facilmente manipulável e preocupado com questões que não combinam com aquilo que tradicionalmente esperamos dele.
E novamente surge a mesma sensação:
para que John Stewart pareça mais responsável, Guy precisa parecer irresponsável.
Para que John pareça mais preparado, Hal precisa parecer ultrapassado.
Para que o novo protagonista represente uma evolução, o legado anterior precisa parecer um erro.
Isso é uma escolha narrativa possível.
Mas também é uma escolha que cobra um preço.
O problema de desconstruir personagens sem reconstruí-los
Desconstruir um personagem não é necessariamente ruim.
Na verdade, algumas das melhores histórias de quadrinhos fazem exatamente isso.
O problema aparece quando a desconstrução vira o objetivo final.
Você pode mostrar um herói envelhecido, traumatizado, arrogante ou fracassado. Pode questionar suas decisões e até colocá-lo diante das consequências de tudo aquilo que fez.
Mas, depois de destruir o personagem, existe uma pergunta importante:
o que será colocado no lugar?
No caso de Lanternas, ainda não existe uma resposta muito convincente.
Hal foi desmontado.
Guy está sendo desmontado.
A própria imagem do Corpo dos Lanternas Verdes vem sendo apresentada de uma maneira cada vez mais distante da grandiosidade que existe na mitologia da DC.
E John ainda não conseguiu ocupar esse espaço de maneira realmente cativante.
O resultado é curioso: a série parece querer que o público comemore a chegada de uma nova geração, mas passou tanto tempo destruindo a geração anterior que acabou deixando pouco para o espectador admirar.

A política está começando a substituir a personalidade
Esse é outro ponto que merece atenção.
A temporada vem trabalhando constantemente com conceitos como privilégio, mérito, identidade e reparação. Não há nada de errado em uma história de super-heróis abordar esses temas.
O problema é quando eles começam a determinar quem os personagens são.
Hal não deveria ser interessante apenas porque representa um determinado grupo.
Guy não deveria ser descartável porque representa outro.
E John não deveria ser considerado superior simplesmente porque ocupa uma posição diferente dentro dessa discussão.
Personagens precisam ser mais do que símbolos.
Quando uma narrativa começa a tratar seus personagens principalmente pelo que eles representam, em vez de pelo que fazem, dizem e escolhem, eles deixam de parecer pessoas dentro daquele universo e passam a parecer peças de um argumento.
E é exatamente essa sensação que Lanternas começa a transmitir.
Adaptação não significa licença para apagar o significado
Existe uma defesa que aparece frequentemente quando fãs questionam mudanças em adaptações:
“É uma adaptação. Eles podem fazer o que quiserem.”
Tecnicamente, uma adaptação pode fazer muitas coisas diferentes.
Mas liberdade criativa não elimina a necessidade de coerência.
Uma adaptação pode mudar a história, reorganizar eventos, criar personagens novos ou seguir uma direção completamente diferente dos quadrinhos.
O que ela não consegue mudar é a reação do público.
Se você pega personagens com décadas de história e altera justamente os elementos que fazem com que eles sejam reconhecidos, não pode depois exigir que o público trate aquela versão como se a história anterior não existisse.
O espectador pode aceitar uma mudança.
Também pode rejeitá-la.
E conhecer o material original não torna essa reação menos válida.

O pior efeito disso é fazer o fã perder a vontade de teorizar
Talvez seja esse o ponto mais frustrante neste momento da temporada.
No início, existia espaço para especulação.
O que aconteceu com Hal? Quem está por trás de Sinestro? Qual é o verdadeiro papel dos personagens apresentados? Existem clones? Existe uma conspiração maior?
Tudo isso poderia ser divertido.
Mas teorias dependem de uma coisa muito simples: confiança na história.
Quando o público acredita que existem pistas sendo plantadas, ele tenta conectá-las.
Quando começa a parecer que qualquer problema pode ser resolvido posteriormente com uma explicação conveniente, a brincadeira perde a graça.
Você deixa de tentar descobrir o que aconteceu e começa apenas a esperar para ver qual resposta o roteiro vai escolher.
E, para uma série construída também em cima de mistério, isso é um problema enorme.
Ainda faltam dois episódios
Talvez Lanternas consiga virar esse jogo nos episódios finais.
Talvez todas essas escolhas tenham uma justificativa que ainda não apareceu. Talvez Hal tenha um papel maior do que parece, talvez as conspirações realmente estejam conectadas e talvez a temporada esteja conduzindo tudo para alguma revelação capaz de reorganizar o que vimos até agora.
Mas existe uma diferença entre guardar respostas e construir uma história que faça o público querer encontrá-las.
Depois de seis episódios, a maior frustração não é simplesmente não gostar das mudanças.
É olhar para personagens que deveriam carregar décadas de história e sentir que a série parece muito mais interessada em provar que eles estavam errados do que em descobrir o que poderia fazer com eles.
John Stewart não precisa de um Hal Jordan menor para ser grande.
Não precisa de um Guy Gardner ridicularizado para ser interessante.
E não precisa que todo o legado anterior seja tratado como um problema para justificar sua existência.
Se os dois episódios finais conseguirem mostrar isso, ainda existe espaço para recuperar parte do que foi perdido.
Caso contrário, Lanternas corre o risco de terminar sua primeira temporada tendo feito algo bastante contraditório: passou oito episódios tentando apresentar um novo futuro para os Lanternas Verdes enquanto destruía, pouco a pouco, aquilo que fazia esse futuro valer a pena.
Assista também
Quer saber todos os detalhes do sexto episódio e conferir a análise completa? Assista à crítica da Dra Geek sobre Lanternas no YouTube:








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